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Conceitos neopentecostais e a genuína
proclamação do evangelho
Seminarista Lavoisier Marinho Costa
O novo é sempre entusiasta, empolgante e até
mesmo, sobre
uma ótica momentânea e relativista, promissor. É
revigorante vê as forças inovadoras da juventude
com seus ideais apaixonados e delirantes. O
enamorado cultural entre um mestre e seus
discípulos. Na antiga Grécia, os filósofos
ensinavam seus conceitos e idéias geralmente ao
ar livre. Os grandes arroubos da genialidade na
história humana tiveram seu nascedouro de forma
quase que espontânea nos célebres momentos de
inspiração, de formas tantas, até românticas.
Tudo isso, além do espírito inquiridor, peculiar
ao homem, e a busca incessante, ainda que
inconsciente, para preencher o vazio existencial
que o cerca, tem fomentado no homem, ainda que
culto, a busca pelo novo, pelo inusitado.
No livro de atos dos apóstolos, é relatada a
evangelização de Paulo em Atenas, na antiga
Grécia. Lá, terra considerada o berço da
filosofia, é dito sobre a sua persuasão, frente
às escolas filosóficas dos Epicureus e Estóicos.
Ambas as escolas buscavam a felicidade do homem,
com conceitos e idéias antagônicas. Porém, é
registrado no versículo 21 do capitulo 17 que, o
que os levou a conduzir Paulo para ouvi-lo na
Corte do Areópago (Lugar onde nos tempos
Romanos, supervisionava a moral, educação e
religião) era a indubitável sede do povo pelo o
novo.
O
Novo Comentário da Bíblia registra que “Vários
séculos antes, essa cidade fora censurada pelos
seus estadistas por se interessar mais em ouvir
e contar novidades do que em atender a assuntos
de maior relevância”.1 O novo nos causa várias
sensações diferentes, e por vezes, somos
influenciados ou ensinados de forma pejorativa e
comprometedora. Daí que, conhecer o que nos
cerca e sabermos tomar posição correta à luz do
que concebemos, é, em muitos casos, uma questão
de sobrevivência.
Dentro de uma perspectiva histórica, o
neopentecostalismo é oriundo da década de
sessenta, porém, somente nas últimas décadas tem
se alastrado de forma avassaladora. O que fez
crescer tanto em tão pouco tempo? Quais suas
premissas e bases doutrinárias? Seria um
avivamento dentro da historicidade eclesiástica?
Contribui esse movimento com a genuína
proclamação do evangelho? Até que ponto líderes
e igrejas históricas no Brasil estão
comprometidos e influenciados por esse
movimento? Essas e outras ponderações são de
suma importância e tem preocupado pastores
sérios e comprometidos com a palavra de Deus. Há
de se buscar respostas objetivas para essas
questões, procurando dessa forma fortalecer o
povo de Deus, Sobre quem pesa a responsabilidade
de proclamar todo conselho de Deus.
Procuraremos, em ligeiras linhas, não exaurir o
assunto, mas, de forma reflexiva, confrontar
essas assertivas à luz da Bíblia e da história
eclesiástica.
O Pastor e pesquisador apologético, o
Presbiteriano Jorge issao Noda, em seu livro:
“Somos Deuses?”, denota o fato de se poder
traçar uma linha transitória das fontes em que
beberam os primeiros mentores deste movimento e
sua atual concepção nos dias hodierno. Fazendo
uma conexão entre o movimento da fé (um dos
nomes dado ao neopentecostalismo) e as seitas
teosóficas e seitas metafísicas americanas. 2
Expondo o fato de que “eles beberam de fontes
tão estranhas ao Cristianismo como o misticismo
hindu”.3
No Brasil, um país de cultura eclética e
miscigenada, onde, em sua maioria, líderes
evangélicos de maior projeção na mídia estipulam
maior valor ao carisma em detrimento ao
academicismo em suas preleções, advindo deste
fato um profundo analfabetismo Bíblico, os
ensinos neopentecostais encontram meios fáceis
de proliferar-se de forma exorbitante. Dentro da
extensa e prodigiosa nomenclatura atribuída por
estudiosos a esse movimento e seus respectivos
ensinos alardeados pelos seus líderes, Temos:
neopentecostalismo, movimento da fé, teologia da
prosperidade, confissão positiva, batalha
espiritual, etc. O que traz em comum esses
ensinos proferidos e aclamados pelos
neopentecostais é a sua total falta de
embasamento Bíblico.
É
comum, em púlpitos Brasil há fora, inclusive por
meios televisivos, os mais inusitados e
sensacionalistas devaneios, aonde os
protagonistas vão desde o pregador aos que estão
na nave do templo. Objetos ungidos, sal grosso,
quebra de maldição, culto do descarrego,
testemunhos de supostos “milagres” atribuíveis a
obediência irrestrita aos desmandos teológicos
do líder religioso, etc. Elementos e ritos dos
mais diversos com intuito de entreter e ganhar a
atenção do “cliente”. O foco essencial desse
movimento religioso para atrair adeptos são as
necessidades básicas das pessoas, no âmbito
emocional, a saúde física e o aspecto
financeiro. Em detrimento a exposição Bíblica,
surge uma espécie de liturgia antropocêntrica,
carregada de misticismo e idolatria.
Diante do exposto, buscaremos responder as
indagações propostas neste artigo:
O neopentecostalismo tem sido considerado um dos
maiores e mais influentes movimentos religiosos
dentro do evangelicalismo moderno. Porém, quanto
a seu expressivo e rápido crescimento, já
expomos várias razões que nos auxilia a entender
esse fato. Em relação as suas assertivas
doutrinárias, esse movimento tem como
característica peculiar usar textos Bíblicos
isolados fora do seu contexto para lhes apoiar
em seus ensinos heréticos. Por exemplo,
Interprentado Jo.9:1-7. O Missionário R. R.
Soares,da igreja Internacional da Graça de Deus,
um dos representantes do neopentecostalismo no
Brasil, fez a seguinte leitura do final do
versículo 3 do texto supracitado “Se não
fizermos a obra dele, o sofrimento continuará”,
Tendo se expressado da seguinte forma; “para
mim, esse é o real significado das palavras do
Senhor. Tenho apreendido que, se não fizermos a
obra dele, o sofrimento continuará. É preciso
que cada Cristão descubra seus direitos na
palavra de Deus e exija-os. Se Jesus levou
nossas enfermidades, por que continuar com elas?
Se Ele carregou nossos pecados, por que
suportá-los? Se o Rei dos reis disse que o
pedíssemos (Determinássemos) ao pai, em seu
nome, Ele mesmo o faria, por que não
determinar?”4
Na verdade, o final do versículo três do texto
mencionado não dá margem para uma interpretação
estapafúrdia e herética como está. O contexto
nos mostra Jesus se encontrando com um cego de
nascença e é interrogado sobre quem haveria
pecado para ele está assim. Jesus é enfático a
dizer “nem ele pecou, nem seus pais; mas foi
para que se manifestem nele as obras de Deus”.
Antes de qualquer coisa, observemos que a
hermenêutica sofística e tendenciosa do referido
líder religioso, fragmentou-se numa regra
basilar da verdadeira hermenêutica Bíblica, que
ensina a não formular doutrina no texto isolado.
Jesus falou no caso específico daquele cego, em
momento algum o generalizou, Dando com isso
embasamento ao ensino supostamente Bíblico que o
crente não é para adoecer.
Segundo os neopentecostais, Sendo o crente imune
às doenças, pois Cristo teria levado sobre si as
mesmas, onde interpreta erroneamente o texto de
Isaias 53.4, entre outros textos isolados,
exegeticamente adulterados e fora de seu
contexto. Conforme líderes neopentecostais,
Devem os Cristãos “reclamar”, “exigir” e
“determinar” sua cura. O referido líder fez essa
leitura, forjando o texto, para apoiar o ensino
anti-Bíblico da confissão positiva e da
determinação. Ocorre que, dentro desse contexto
específico doutrinário, numa visão
neopentecostal, não existe o evangelho da
renúncia pregado por Cristo e seus apóstolos.
Muitos hoje em dia não sabem o que é carregar a
cruz, desconhece o evangelho do sofrimento, do
contentar-se com pouco, da resignação. Surgi
assim, no meio do evangelicalismo moderno, um
evangelho falso e barateado.
Quanto a esse movimento ser porventura um
processo de real avivamento nos tempos modernos
para igreja de Cristo, não há necessidade de
sermos abrangentes. Observando os grandes
avivamentos na história eclesiástica,
entenderemos que entre tantas outras diferenças,
um verdadeiro avivamento Bíblico aproxima a
igreja da palavra e conseqüentemente de Deus,
não de ensinos heréticos.
Julgamos que o cerne primordial desta
problemática é avaliarmos até que ponto líderes
e igrejas históricas que tem origem numa
teologia sadia estão comprometidos e
influenciados por esses ensinos nocivos a fé
Cristã. Os meios mais diversos são utilizados
para propagar esses ensinos. Redes televisivas e
de rádios, livros e periódicos, conferências,
cruzadas, organizações e denominações
gigantescas, são demasiadamente exposto à
sociedade. Esse investimento, aliado ao
analfabetismo Bíblico entre muitos Cristãos,
proporciona uma abertura em muitas igrejas para
inclusão, ainda que, por vezes sutil e
imperceptível, desses ensinos e práticas no meio
protestante. Há de se avaliar, na geração
pós-moderna a qual estamos inseridos, onde se
desconhece verdades e valores absolutos, que
tipo de teologia tem sido exposto nos púlpitos e
vivenciado em nossas igrejas.
Começamos esse artigo propositadamente trazendo
a figura do novo. Isso porque a idéia
neopentecostal é de uma suposta “nova
revelação”, um sentido de um “novo mover do
Espírito”. Dentro dessa perspectiva a
subjetividade em relação ao conhecimento de Deus
e sua palavra são fortemente ressaltadas em
detrimento a revelação objetiva do seu conteúdo.
A Bíblia passa a ser não mais que um amuleto em
que se apóiam várias cosmovisões e
interpretações estapafúrdias mediante
experiências empíricas, individuais ou
coletivas, motivando razões das mais fanáticas,
supersticiosas, doentias e espúrias, por vezes,
de acordo com a conveniência particular. Assim,
o novo é sempre atraente aos menos desavisados,
leigos e ansiosos por preencher lacunas
intrinsecamente peculiares ao homem. Porém, é
interessante e esclarecedor, observarmos em
primeiro lugar os primórdios ou vertentes que
originaram esse movimento e seu total
afastamento do Cristianismo histórico e Bíblico.
O neopentecostalismo, extremamente nocivo às
verdades primárias e inegociáveis do
Cristianismo, é fruto direto do pentecostalismo,
teologicamente ambíguo e evasivo em suas
assertivas doutrinárias. Como na linguagem do
salmista que, “um abismo traz outros”, os
desmandos teológicos pentecostais foram os
primeiros passos para o surgimento do
neopentecostalismo. Por sua vez, o
pentecostalismo surgiu onde alguns movimentos da
história eclesiástica, por motivos os mais
diversos, se afastaram dos conceitos elementares
da fé Cristã.
A reforma Cristã do século XVI, também conhecida
como reforma protestante, foi um dos maiores
acontecimentos históricos dentre os embates
eclesiásticos, no que diz respeito ao resgate
das verdades fundamentais do Cristianismo
ortodoxo, verdades essas abolidas no apogeu do
catolicismo Romano na idade média. A reforma
teve como pilar a completa restauração da
primazia, supremacia e suficiência das
escrituras, bem como, a justificação somente
pela fé. Ainda nos primórdios, reformadores
tiveram que confrontar grupos sectários, a
exemplo dos anabatistas, que dando uma ênfase
demasiada e anti-Bíblica as ações do Espírito
Santo, acrescentaram à santificação no grau
elevado para a salvação individual, ferindo a
doutrina da justificação somente pela fé.
Tempos posteriores, surgiu na Alemanha e depois
nos Estados Unidos, de forma mais rigorosa, o
movimento pietista, que renegando as doutrinas
objetivas Bíblicas da justificação somente pela
fé, traziam em seus ensinos uma busca frenética
por uma santificação perfeita para se obter a
salvação. Buscando uma subjetividade em seus
processos de santificação para o alcance da
salvação, o movimento pietista negava o ensino
Bíblico da imputação da justiça de Cristo sobre
a vida do crente, acrescentando-lhes as obras
humanas para salvação. Já no século XVIII, o
movimento chamado de Wesleyanismo, nos Estados
Unidos, movimento que levava o nome do fundador
do metodismo, John Wesley, influenciado pelo
pietismo Morávio e por representantes místicos
do catolicismo Romano, abraçou a idéia de uma
santificação perfeita para o alcance da
salvação, dando ênfase a experiência subjetiva
humana em detrimento a objetividade da revelação
Bíblica. O metodismo passou a ser o grupo mais
influente nos Estados Unidos.
A partir de então, Veio a surgir no século XIX o
movimento de santidade e periódicos cultos
avivalistas, onde a ênfase era a busca por
experiências empíricas e místicas em busca de
santidade. Daí ocorre o aparecimento nos Estados
Unidos da América de evangelistas que viriam a
mudar o curso teológico de muitas igrejas
naquele país. Como o advogado Charles Finney,
que embora tivesse sua origem numa igreja
Presbiteriana, influenciado por esse movimento
herético, posteriormente abandonou a sã doutrina
Bíblica reformada, vindo a ser um dos mais
influentes evangelistas desse movimento. Ainda
nos dias hodiernos sua teologia sistemática é
bastante aceita nos meios pentecostais. Finney,
que não possuía uma formação teológica
acadêmica, era um ardoroso crítico de Calvino,
Lutero e os demais reformadores, com respeito à
doutrina da justificação pela fé somente.
Numa visão anti-Bíblica e Arminiana, sua ênfase
predominante era na santificação e na obra de
Deus para salvação no contexto da experiência
meramente humana. Dentro desse emaranhado
processo de afastamento das doutrinas
fundamentais Bíblicas, aparece o movimento
pentecostal, com suas lacunas de fundamentações
teológicas, em sua maioria de formação Arminiana,
portanto humanista, advindo desse processo
nefasto o surgimento em tempos posteriores do
neopentecostalismo.
A Bíblia nos adverte a permanecermos na doutrina
dos apóstolos. Entendemos que o surgimento de
ensinos deturpadores da ortodoxia Bíblica, a
exemplo do neopentecostalismo, não é novo na
historiografia eclesiástica. Já no inicio do
Cristianismo a igreja foi confrontada com
ensinos heréticos que misturavam conceitos e
idéias humanas em detrimento a autoridade
Bíblica.
O
Gnosticismo que procurou fazer uma ponte entre
conceitos Cristãos e a filosofia helênica,
procurando com isso ofuscar a mensagem da cruz,
foi duramente combatido em seu tempo. O
Docetismo, que negava a natureza humana de
Cristo, foi outro ensino herético confrontado
até o segundo século da história da igreja. A
exemplo dos ensinos heréticos de hoje, todos tem
raízes em conceitos meramente humanos e
anti-Bíblicos. Mais uma vez, na
contemporeanidade, o foco é o homem em
detrimento aos conceitos e revelações Bíblicas.
O apóstolo Paulo escrevendo sua epístola aos
Romanos, comenta o zelo dos Judeus no aspecto
religioso, contudo, lamenta sua total falta de
conhecimento interpretativo da revelação
Bíblica. A verdade é que Deus ira julgar os
motivos porque supostamente o servimos. Não
temos que ser meramente religiosos farisaicos e
arrogantes, como que tivéssemos méritos à
salvação e direitos adquiridos as benções de
Deus. Fomos alcançados por sua graça redentora e
como nos afirma a sua palavra “aquele que
começou a boa obra a aperfeiçoará...”5. Judas em
sua epístola inspirado pelo Espírito de Deus nos
exorta “...a batalhardes, diligentemente, pela
fé que uma vez por todas foi entregue aos
santos”6.
Cada geração de salvos enfrenta seus percalços e
lutas em sua caminhada. A história eclesiástica
nos exorta, ensina e conclama que, quando a
igreja procura viver pautado na palavra, sem
nenhuma restrição, ela escreve ao longo de sua
trajetória páginas indelével de testemunho às
gerações posteriores. Porém, podemos observar
fatos do ponto de vista críticos, como: A Europa
que foi berço da reforma, hoje se encontra
pobre, teologicamente sem Deus; Os Estados
Unidos, que floresceu numa visão teológica
reformada, nos últimos tempos tem esboçado uma
igreja medíocre e o surgimento de várias seitas
no solo Americano. Daí que, é importante
sabermos aquilo que surgi de “novo” em nossa
geração, avaliarmos à luz da palavra de Deus e
combatermos, nas palavras do apóstolo Paulo “...
Todo sofisma que se levanta contra o
conhecimento de Deus”7. Tudo isso pode
significar para nós a sobrevivência da igreja
como agencia divina em solo Brasileiro para esta
e posteriores gerações. Terminaremos expondo uma
máxima extraída dos conceitos reformados do
século XVI “Uma igreja reformada, deve estar
sempre se reformando”.
Soli Deo Gloria!
1. Novo Comentário da Bíblia, p. 1131.
2. Somos Deuses?, p. 13.
3. Idem, p. 12
4. Jornal show da fé. Ano 2- n° 26- Março de
2008. p. 20
5. Fl.1.6.
6. Jd.vs.3.
7. 2ª Co. 10.5-6. |